A Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí (SP) promoveu o 3º encontro de formação pró-vida, dando continuidade ao curso “Família, Escola de Vida”. Segue a íntegra da exposição do vereador Hermes Rodrigues Nery, Presidente da Câmara, na Sala de Sessões do Legislativo Municipal, em 23 de junho de 2009. Após a apresentação do tema, jovens participaram com perguntas, com questões sobre namoro, matrimônio, vocação, castidade, fidelidade, abertura a filhos, etc. O curso focará, em agosto, o tema da paternidade.
Família: primeira e principal instituição humana
Ver. Hermes Rodrigues Nery

Quando afirmamos que a família é a primeira e a principal instituição humana, é porque a civilização só foi possível a partir da família, por causa dela, e com a sua estrutura natural. Sem a família não haveria os avanços obtidos pela humanidade, em todos os setores da vida humana, tanto em nível natural como sobrenatural, no atendimento das menores e maiores necessidades da pessoa humana. E certamente por causa da família é que foi possível evitar opressões e violências que pudessem desestabilizar seriamente o convívio humano, pois viver é conviver, e não se é feliz sozinho, mas em convivência, na superação de conflitos, no intercâmbio das promissões, para alcançar a condição desejada por todos, da comum unidade, daí a esperança de se chegar à comunidade realmente imbuída de humanidade, capaz de fazer cada um – por conta da convivência – realizado como pessoa, e, portanto, feliz. “Não se trata de uma felicidade entendida como comodidade” 1, mas felicidade enquanto vida bem aventurada. Tudo isso só é possível a partir da família, por causa dela, e com a sua estrutura natural. Sem esse suporte, a pessoa não tem como se realizar, frustrando assim sua vocação e identidade, daí a relevância da família como promotora do ser humano.
Se voltarmos para os primórdios dos tempos, desde o surgimento do ser humano, no longuíssimo período da pré-história, vamos perceber claramente o complexo processo do homem em encontrar sentido para a sua vida, a motivação que o fizesse viver para além da sobrevivência, no chamado misterioso para ser alguém a transcender a circunstância e não ser refém dela, alguém a imprimir uma marca pessoal naquilo que faz, a descobrir uma alegria de ser alguém, a se reconhecer destinado à uma realização pessoal (cujo “destino é precisamente um desafio à liberdade” 2, distinguindo assim dos animais, pela liberdade, pela consciência e pela percepção do chamado a ser alguém, a fazer parte de uma comunidade e de uma história, a contribuir para a felicidade dos demais, a ter alegria e a sentir-se vivo por isso, e, mesmo sabendo de sua fragilidade e provisoriedade, na dimensão temporal de sua existência, o ser humano sente vivamente o seu chamado à eternidade, a construir – com a sua liberdade – quem ele quer ser na eternidade, a definir sua condição futura, a partir de seus atos nesta vida, pois “o homem é um ser de relação, e a qualidade de sua vida de sua vida depende de que as relações essenciais (…) e fundamentais, enraizadas no seu próprio ser, sejam corretas” 3. Daí que “liberdade é conseguir fazer opções moralmente corretas, que nos encaminhem rumo aos fins que contribuem para a verdadeira felicidade” 4
Há uma passagem na Odisséia, de Homero, em que Ulisses narra suas aventuras no mar Egeu, de volta da guerra de Tróia para Ítaca, quando desembarca na ilha da atual Sicília, e encontra-se com o gigante Polifemo, um ciclope monstruoso de um olho só na testa. Os companheiros de Ulisses foram encerrados numa caverna pelo terrível monstro, que ia perguntando o nome de cada um que por ali passava, (“quem vem lá?”), aprisionando-o. Antropófago, o monstro ia devorando, a cada dois dias, os que eram capturados. Para salvar seus companheiros, Ulisses encontrou um meio de entrar na caverna sem ser reconhecido, respondendo ao monstro simplesmente que ele era “ninguém”, isto é, que não tinha nome, nem identidade. E entrando na caverna, Ulisses consegue matar o monstro, devorador dos que tinham nome, dos que eram “alguém”, dos que tinham identidade. O monstro é morto em altos brados, dizendo”ninguém me mata, ninguém me oprime”. Essa passagem é muito ilustrativa, pois evidencia o quanto ser “ninguém” oprime o homem, o conduz a “uma solidão radical”5, o quanto ser “ninguém” mata a pessoalidade e, portanto, a vida do ser humano. Só se vive sendo alguém, destinado a se acertar na relação com o próximo, para que haja efetiva comunhão, na convergência de afetos e de vontades, motivados ao bem de todos.
Nos tempos primevos da pré-história, dentre tantas percepções e experiências, o homem reconheceu que só em família (a partir da família e por causa dela) é que é possível ele viver humanamente. Fora dessa realidade, ele fica vulnerável à muitas agressões e violências, apequenado e asfixiado, inviabilizado como pessoa. Foi a experiência histórica quem comprovou isso, daí que antes a descoberta mais significativa da Pré-História, mais do que a do fogo, da agricultura e da escrita, foi certamente a descoberta da família, pois a partir dessa feliz descoberta, o homem deixou o nomadismo e a vida errante e dispersiva, para sedimentar e acumular experiência e valores e cultivar o húmus da civilização.
A família, portanto, foi decorrência de um dado empírico: o homem constatou sua necessidade, validou a sua importância e consolidou-a como instituição, a primeira instituição humana, tornando-a a principal, pois as demais que vieram depois, inclusive o Estado, surgiram e se desenvolveram justamente para salvaguardar a instituição original, antiqüíssima, de milênios, que até hoje teve êxito na proteção e promoção do ser humano.
Foi com a descoberta e consolidação da família, nos tempos pré-históricos, que o ser humano foi encontrando, aos poucos – e sempre muito dolorosamente – uma proteção maior contra opressões e violências, e em família foi construindo aquela “regra unitiva”, capaz de se sentir amado e de amar, especial característica que só por ser humano é possível vivenciar, pois “a estrutura do amor é aquela de uma comunidade interpessoal”.6 Hoje, com a gravíssima crise da estrutura natural da família, vamos sentindo de forma bem evidente uma espécie de retorno àquele estado de selvageria e barbárie dos tempos primitivos, justamente pelo enfraquecimento da instituição familiar, pois onde carece a família, prevalece a lógica do mais forte, indigna e desumana.
É certo que a humanidade ganhou muito nesses milênios de civilização, especialmente nos últimos dois mil anos, quando o cristianismo reconheceu a força edificante da família, elevou o matrimônio a sacramento, humanizou as relações, elevou a pessoa humana a uma dignidade e a uma sacralidade como condição para uma excelência que ainda hoje permanece a grande perspectiva e um desafio sempre crescente.
Confúcio (551-479 a. C.) foi preciso e lúcido em afirmar que “para governar deliberadamente um reino, é necessário dedicar-se primeiramente a estabelecer a família e o ordenamento que lhe convém”.7 Aristóteles também “mostra-nos que a sociedade mais ampla, mais complexa e, num certo sentido, mais perfeita, ou seja, a polis, a sociedade política, não existe (geneticamente) a partir da família, e sempre na família”. 8
Há ainda um aspecto relevante a ser ressaltado: a família é ponto de partida (a pessoa se realiza a partir dela), que deve preparar o ser humano à transcendência, isto é, a ser mais, a ser melhor, a ser humanamente excelente. A isso deve nos levar a família, até o ponto em que, educados na escola da vida que é a família, e também escola da felicidade, possamos – todos nós – nos sentirmos pertencentes a uma única e grande família humana, filhos todos de um mesmo Pai, todos destinados à dignidade e a vida plena. Por isso, no dizer de Jacques Maritain: “O fim pelo qual a família existe é o de produzir e formar pessoas humanas e prepara-las para alcançar seu destino total. E se o Estado tem uma função educativa (…) é de ajudara família a completar a própria missão” 9
A família é certamente “viveiro da sociedade”10, somente por meio dela é que a vida torna-se pulsante, fecunda e promissora. Vida esta que deve ser cultiva com valores e afetos, com sonhos e promissões. Vida regada com lágrimas até, mas com a alegria de quem sabe ser a família a via segura (estreita) para o bem de todos.
Pronunciamento na Sala de Sessões da Câmara Municipal de São Bento do Sapucaí, em 24 de junho de 2009.
Bibliografia:
1. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, Ed. Imago, 1997, p. 25.
2. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, Ed. Imago, 1997, p. 36.
3. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, Ed. Imago, 1997, p. 20.
4. Hayden Ramsay, Família e Filosofia, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 367 (Veritatis Splendor, 35).
5. Joseph Ratzinger, O Sal da Terra – O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milênio – Um Diálogo com Peter Seewald, Ed. Imago, 1997, p. 31.
6. Fernando Moreno Valencia, Família e Personalismo, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 380 (Karol Wojtila, Amore e responsabilità, 62 e 64 (também 92).
7. Fernando Moreno Valencia, Família e Personalismo, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 377 (Confúcio, Studio integrale e L’Asse che non vacilla, Milano, 1960).
8. Fernando Moreno Valencia, Família e Personalismo, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 378 (Aristóteles, A Política, I, 1).
9. Fernando Moreno Valencia, Família e Personalismo, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 381 (Jacques Maritain, Lês droit de l’homme, 100).
10. Fernando Moreno Valencia, Família e Personalismo, Léxicon, Termos ambíguos e discutidos sobre família), Edições CNBB, 2007, p. 380.






